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Encalhe

Nossos passos seguem os passos dos que nos precedem na trilha do exercício. Meus olhos vão geralmente pregados nas pedrinhas basálticas, umas brancas outras pretas outras ornadas por excrementos caninos. Os pensamentos voam, hora à velocidade bem acima da da luz, para logo em seguida estagnarem sobre o nada; “O que foi que eu disse?” Pergunta-me a minha companheirinha. Pergunta surpreendente e assaz embaraçosa, porque é claro que, se ela falou, eu não terei dado a mínima atenção. As passadas azedam já que eu nunca cheguei a aprender como desculpar-me. A não ser que algo não usual encontremos, como um veleiro de bom tamanho carregado pelo swell e atirado às pontiagudas rochas. Condoída ficou minha alma do mar, pelo destroço, ainda que agradecida, afinal…

Águas vivas, tão revoltas

ainda que tão abrigadas!

Amarras partidas e soltas,

embarcações encalhadas,

esventradas, destroçadas…

Faxina

É com o auxílio luxuoso, non-stop e suave de peças barrocas, que tento varrer e aspirar as impurezas que se foram acumulando na minha alma. Em tais faxinas, encontro e removo sujeira de toda a espécie, deste “schrapnel” dos obuses da guerra em curso, à quantidade incomensurável de letra natimorta já putrefacta, exalada pelas fantásticas e inúteis bestas políticas, lá onde podem ser encontradas em busca do poder que a sua insaciável sede demanda…

Pet

Kiara Betina C. Alonso, é o nome e sobrenome da felina. Kiara com “K”, em vez da Chiara italiana como seria, porque ela não chia, só mia. As meninas estão, pelo menos por enquanto, grudadas na bichana. Na grande roda da vida tudo retorna e a Kiara lembra muitíssimo a nossa Belina, companheira em quase 20 anos…

Hoje…

…Desliguei o disjuntor do circuito que me liga às más recordações desta data. Diverti-me, acompanhando em direto os ins and outs de mais um dia da comédia jurídica Johnny Depp versus Amber Heard. Baixei alguns “backing tracks” e dedilhei as guitarras por vários curtos períodos. Dei apoio como pude à minha mais-que-tudo, tão sofrida com dores numa perna e num braço e rimos até às lágrimas quando eu próprio descobri que a razão de não encontrar os bolsos era porque eu havia vestido a bermuda dela! Uma bermuda jeans cheia de enfeites prateados que não notei, quando peguei a peça que estava junto com a minha! Suspeito que, afinal, acabei por desligar mais que um disjuntor…

Espera…

Com crescente sacrifício, seguimos caminhando os cerca de 2 quilômetros matinais que diariamente nos impomos como mínimo medicinal. O que não esperávamos é que a Nina parece, em estágio inicial, estar sofrendo também de artrite, ou artrose. Nada bom para uma mulher de setenta e cinco, até agora com uma vitalidade e disposição invejáveis. No decorrer do dia, sentamos em frente às nossas telas e seguimos, ao vivo e a cores, nosso pavoroso mundo a caminho das trevas, enquanto esperamos em vão, alguém que se interesse pelo nosso pedacinho de chão e de teto e de paredes e janelas, ainda inteiras, porque a guerra, por enquanto, não chegou por aqui…

Mútuo amparo

Reconhecendo a crescente dificuldade em exteriorizar o que me vai na alma, deixo correr meus dias sem que, como outrora, sobre eles me desperte o interesse escrever. Porque escrever é mesmo muito difícil, se queremos compor textos inteligíveis e com algum atrativo. E assim é, pelo menos para mim, que me acredito carecer de uma capacidade criativa com a solidez que avalio ser vital aos que produzem escritos com valor literário de alguma expressão. Mas chega de autoflagelação. Nina chegou com mais alguns pecadilhos salgados que ambos não hesitamos em cometer, degustando-os como contraponto às agruras e sofreres atrelados às mazelas físicas e psíquicas de um casal septuagenário amparando-se um ao outro com mais ou menos disposição…

Kitutes

Merendei o domingo, encetando um queijo magistralmente curado ao longo de algumas semanas pelas mãos da Nina, acompanhado por um tinto de preço compatível com a minha condição econômica. Um queijo caríssimo da região de Idanha-a-nova, apesar das diferenças ovelha x vaca, decerto não me teria deliciado mais que este, de trato caseiro com suave travo picante. Sem esconder que a merenda se iniciou com sashimi de lombo de bacalhau (só pra não falar o nome tradicional do prato)…

Koisas de doido

…Então, dá-me pra rir. Mas neste meu caso, rir não é o melhor remédio. Ao contrário, rir envenena a relação, porque o meu rir é a minha estranha reação ao ser invetivado em razão das minhas idiossincrasias. Resistências em ir ao médico, por exemplo, ou ao ser (injustamente) acusado de indolência e desinteresse, como agora há pouco. Dizem-me ser um ser nada social ou mesmo anti social e isolar-me e isso faz-me invariavelmente rir em desproposito, feito Kavala Harris! Acabo ficando sério e silencioso, porque reagem ao meu idiótico rir, ameaçando chorar. Não adianta prometer não rir, posto que aquele meu riso não é meu, nem um riso a sério: É fake – um tipo de choro travestido, ou coisa assim, inexplicável…

Imortais

Lygia Fagundes Telles deixou hoje este vale de lágrimas, pertinho de comemorar 99 anos. Ainda que imortal, ela não se ralará mais com as coisas do mundo e, com toda a certeza, não vai dar a mínima para quem irá ocupar sua cadeira na Academia. Como estou ainda vivo, vou seguir tudo o que se vai seguir no processo de escolha daquele ou daquela que terá essa honra, torcendo para que seja escriba pelo menos do mesmo nível da ínclita finada.

Os Malditos…

O matadouro em que, uma vez mais na história contemporânea, se transformou a Ucrânia, levou-me a abrir e reler o início da biografia de Clarice Lispector, a meio de um dos vários períodos sangrentos e êxodo de povos judeus fugindo da inaudita violência dos progroms e do tratamento abaixo do reservado para animais de abate. O excelente biógrafo Benjamim Moser, conduz-nos através do inimaginável em termos de barbárie até Chechelnyk, local de nascimento de Chaya Pinkasivna Lispector no fim do ano de 1920. Meses depois, após inenarrável sofrimento, a família seria recebida em seu refúgio final, no nordeste do Brasil. As imagens reais que vi esta manhã, difundidas por credível fonte, em que um casal civil em fuga no seu carro foi forçado a parar, o homem saiu do carro de mãos no ar, mas foi friamente executado pela tropa russa. Ao mesmo tempo, metralharam o carro matando a esposa e depois tocaram fogo nos corpos. Tudo o que de mais horrendo li ao longo das difíceis páginas de outras obras tais como “A Lebre com olhos de âmbar”, ou “O Orientalista”, para só citar dois dos que mais me impressionaram, passou-me pela mente. Os malditos voltaram, sim senhor, apenas cem anos depois…