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Testamento

Eis-me aqui, ainda vivo, vivo!

Ainda nem fiz testamento…

Aqui estou eu, ainda ativo!

Brinco de jovem forte e altivo

Ninguém me escuta um lamento!…

 

Pois sim, digo pra mim;

 

Bem que tento me enganar

Mas idade é coisa séria

Meu tempo está a minguar

Não adianta bravatear

E soltar toda esta léria…

 

O testamento, dizem, é devido

Mas testamento do quê, por favor?

Tudo que em vida haja auferido

Deverá seu crédito ser deferido

Integralmente ao meu Amor

 

Epitáfio, disso eu não careço

Minha carcaça o fogo vai queimar

Em cinzas o destino que mereço

É, em mui vigoroso arremesso

Ser lançado às ondas do mar…

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Tão célere nossa vida se escoa

Tão curta a vida nos parece

Às vezes a vida é tão boa

Mas tanto nela se padece…

 

Diz-se que a vida é boa

Mas nem tão boa nem afável

Sobreviver não é coisa à toa

A vida, afinal, é nada amigável

 

A vida contém bons momentos

De ardente amor, amores

Mas não lhe faltam tormentos

E mágoas para alimentar as dores

 

Mágoas que a gente perdoa

mas a mente as não esquece

se a mente não as esquece

como é que a gente as perdoa?

 

Mal dos tempos…

É a maldita palavra “Política” estalar nas imediações e eu me sentir vergastado. Ora acontece que essa ordinária invadiu-nos, está agora omnipresente e o pior: Essa coisa está interferindo no nosso casamento de mais de meio século! A minha reação alérgica a toda essa escumalha compele-me a manter-me afastado de notícias – sequer admito ouvi-las! Como a Nina, ao contrário, passou a viver seriamente os meandros desses malandros em confronto, dei por nós numa estranha frieza…

 

Retirada

Nesse imenso palco ao longo da vida te dispões
Dans la grand scène sob os projetores te expões
ante um respeitável público, que implacável será!
Se medíocre ou ruim julgam teu desempenho,
ou se por cansaço de súbito te falta empenho,
do frustrante insucesso teu público te não livrará…

 
Mas quando agrades, os focos da ribalta brilharão,
com aplausos retumbantes e elogios te brindarão,
alvissareiras recompensas quiçá lograrás auferir;
Essa comédia de vida ao longo da vida encenarás,
das vantagens dessa vida na vida te beneficiarás,
até que o ocaso da vida na vida começa a intervir…

 
Tua dinâmica de palco vai perdendo valor
Tua voz diminui em intensidade e ardor
Lâmpadas vão fundindo, sem reposição…
Lentamente, as sombras baixam sobre a cena.
Sem aplausos, a alma como que se apequena
e, conquanto ela pareça resignada e serena,
maltrata e atormenta o teu cansado coração…

Ah, Rio!…

de Janeiro a Janeiro,
venerei-te por inteiro,
por décadas da minha vida!
Mas agora resolvi deixar-te…
decidi as costas voltar-te
a ti, que me deste guarida!

Tempos difíceis, ó Rio!

Nem eu posso acreditar
vou friamente te abandonar,
ó cidade maravilhosa,
ou, enfim, outrora maravilhosa…
Lembrar-te-ei com carinho,
ao escutar bossa, chorinho
tua música tão gostosa…

Das barcas o vai e vem
rostos sem rosto que passam,
se cruzam, se ultrapassam
buscando quem está além…
Vozes cariocas na multidão
que contam piadas brejeiras,
escondem verdades inteiras
de mágoa e de solidão…

Irei deixar-te, ó Niteroi,
Gragoatá, Flexas, Icaraí
parte de mim fica por aí, olhaí!
Ainda nem fui mas já dói…
Já dói, já dói!

***

A gente anda, anda, anda…depois desanda!

Dos muitos lugares onde morei no decurso da minha vida, foi a cidade de NIteroi, área metropolitana do Rio de Janeiro, o nosso mais duradouro lar: Exatos trinta e cinco anos!

Ao longo de todo esse período fui, em relação à cidade e região do Rio de Janeiro, do deslumbramento e orgulho de nela viver, até à perplexidade presente. Afloram ainda aqui e ali flashes de paixão em relação a locais, monumentos e natureza; Diferente, porém, da paixão intrínseca e permanente que em mim a cidade noutros tempos gerava.

 

Das Almas do Diabo

Vereis, senhores, que ao contrário do que afirmais, não são os políticos seres desalmados. São eles outrossim providos de almas cuidadosamente treinadas e formadas para ocuparem as mais elevadas posições na pirâmide, de onde, entronadas omnipotentes almas-do-diabo, vos exploram, roubam e infernizam, até ao implacável momento em que, sendo eles simples e reles mortais, ao diabo sua miserável alma terão que devolver.

Vereis, senhores, que vós próprios entronastes esses trastes com o vosso descuidado e/ou mui servil voto. Valeria então dizer serdes vós os criadores de tão vis criaturas que dizeis desalmadas…

A meio da noite…

 

Como é belo e suave o teu dormir!…

…e é melodiosa a tua respiração!

Quisera que as batidas do teu coração

o meu coração ainda lograsse seguir…

 

Um dia, há muito tempo, eu escrevi:

 

“Meu coração…

…só pode ser gêmeo do teu!

Vou jurar que, quando o teu peito está encostado ao meu,

os dois corações batem exatamente no mesmo ritmo…

Uníssonos e síncronos! Algo assim como…

Como se estivessem ligados por invisíveis fiozinhos elétricos,

cuja corrente os comandasse para que batam em paralelo,

desse jeitinho, sem sair do compasso!

Coração dependente, este meu coração

Irremediavelmente ligado ao teu…”

 

Meio da noite, desperto, escuto o uivar do vento

Deito de bruços, ouvido bom sobre a almofada

O que escuto é uma amálgama descompassada

do meu arrítmico coração o batimento…

 

Coração dependente, este meu coração.