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Elisabeth

Nasci em 44, quando nas ilhas britânicas reinava o rei George VI e toda a Europa estava engajada na brutalidade da segunda guerra. Nessa data, Elisabeth Alexandra Mary seria uma alegre teen ager e, suponho, não imaginava o que lhe estava destinado em alguns poucos anos. Hoje, 70 anos decorridos de reinado e 96 de vida, ali estava ela rodeada de toda a pompa e circunstância a que faz jus, percorrendo os mesmos caminhos da coroação, só que, desta feita, em direção ao sepulcro.

No ano de 1957, tive oportunidade de vê-la de pertíssimo quando, havendo ela optado por circular pela minha cidade do Porto numa viatura aberta destinada ao transporte de polícia, passou muito lentamente pelo local onde me encontrava, comprimido junto da berma da rua pelos agentes de segurança, contra uma multidão indescritível concentrada no coração da cidade. Nesse tempo o Porto era especialmente anglófilo, com cabines telefônicas importadas de Londres, praças centrais poderosamente iluminadas por gigantescos painéis publicitários em néon dinâmico, montados sobre os telhados dos altos prédios, à maneira de Picadilly Circus. Enfim, a rainha influenciou o nome da minha irmã e a mesma anglofilia do nosso pai deu-me o nome daquele almirante de Trafalgar!…

Em tempo: Eu sempre admirei muitíssimo o carisma de Elisabeth II – que me perdoem os amigos antimonárquicos.

Sábado

O Sol nasceu filtrado, em rubro penetrante que escorria pelas frestas e fenestras até avermelhar o banquinho e a guitarra, no seu cantinho feito um palco iluminado… Em pouco tempo, abria-se, poderoso e quente, neste dia de sábado de céu glorioso. Glorioso e escandalosamente azul! Nina excedeu-se na preparação de um red fish dos gelos, que escapou à voracidade dos bacalhaus para acabar no nosso forno. Enquanto sua alvíssima carne era lentamente saboreada, ocorreu-me imaginar e descrever um daqueles pedacinhos no fundo de um enorme prato ornado com dois arabescos feitos com fios de azeite, um touch de verde com pequeninas folhas. O nome do prato no Menu seria “Poisson Rouge aux fines herbes”, com duas estrelas no Michelin. Degustei mais um gole da minha taça de vinho tinto, fermentado de uvas das castas Aragonês, Castelão e Trincadeira, colhidas nas vinhas das terras quentes do Baixo Alentejo,13,5% GL com excelentes sabores frutados, de 5 euros por litro, como se fosse um “gran cru” de preço extravagante. Como sobremesa, optei por um Romeu e Julieta com queijo de ovelha curado, marmelada caseira feita pela minha irmã, com banana da Costa Rica. Não resisti e fui dormir a sesta…

Memória

Sobreviver incólume a um inferno de fogo! As três mil almas nas torres gêmeas do WTC neste dia em 2001 não tiveram tal chance e foram imoladas/esmagadas sem dó nem compaixão. Não esqueço, não perdoo…

Odisseia

Decidido! Desta vez faríamos jus aos caraminguás há tanto tempo pagos pelos ingressos sênior para visitar a Quinta. Havendo certificado que os ingressos estavam ainda válidos e à mão no telelé, programei o GPS para as coordenadas da entrada da desejada Quinta. O resto foi mú-mú: A2, A5, IC19, chegada a Sintra, N375…bingo! Eis-nos nos portões principais da Quinta. Agora só faltava arrumar um lugar pro carro. A estradinha estava coalhada deles – de carros e fomos avançando de mansinho, convencidos que em algum momento surgiria um espaço. 500 metros depois, descemos uma ruazinha que descobrimos sem saída e sem vagas – voltamos para descobrir que a estradinha que nos trouxe, era sentido proibido para retornar! Lá seguimos subindo para o desconhecido, cada vez mais longe do objetivo, cada vez mais embrenhados no serpentear de estreitas vias no meio da floresta, entretanto com a bexiga estourando. Eis que surgem os portões forjados de uma outra Quinta que não a Quinta que pagamos. Deve ser uma Quinta menos importante, porque sobravam vagas no estacionamento em frente. Havia também mesas rusticas com famílias devorando seus farnéis à sombra magnífica das frondosas árvores. Estacionei o carrinho e saí procurando um lavabo, um WC, um mictório. A moça da entrada da Quinta disse que se eu pagasse o ingresso, teria um “lá no fundo” – não sei se do inferno. Com vontade canina, procurei desesperadamente uma árvore naquele mundo de árvores. Encontrei-a num recinto emburacado, pejado de lencinhos higiênicos. Homem não costuma usar lencinhos para enxugar o biquinho do perú. Então, concluí, o lugar é mijadouro unisex e eu não perdi mais tempo. Felizmente a minha +que tudo não experimentava tal urgência fisiológica e esperava-me dentro do carro, tranquila e mordaz, escutando música. Foi longo o caminho florestal percorrido até ao retorno a Sintra, onde esperávamos finalmente estacionar e de lá cavalgar um tuk-tuk salvador que nos conduzisse às portas do paraíso iniciático. Mas também lá, entramos em labirínticos caminhos seguindo setas idiotas e mentirosas. O saco estourou e, perdido, programei o GPS para me guiar de volta a casa. Quando à Quinta, coloquei no som a de Beethoven…

Despertar

…E lá está o Sol que rompe as névoas da madrugada, por entre meus repetidos bocejos de mal acordado. Brilhará ao longo de mais um magnífico dia de incomparável azul-celeste, ou não; dizem que teremos umas chuvicas esta semana. Que venham, para regar um pouco toda essa secura e pincelar de verde-esperança, o negrume da terra queimada…

Volta

Na ausência, relocalizei-me e reciclei-me. A reciclagem poderá não ser muito credível, contudo, porque não fui capaz de defini-la. Nessa ausência de razões múltiplas, que poderão até ser condensadas em perda pura e simples de confiança em mim próprio, senti volatizada toda a vontade de escrever, enquanto ruborizava envergonhado, se relia textos meus. Na procura por energias, prossigo em leituras e releituras – Marcel Proust, Agustina Bessa-Luís…

Ereção

Ereção

O tempo virou, esfriou, está ventoso e desagradável; reclamo, como reclamava há uma semana atrás pela razão inversa, de temperaturas de veranico. Apraz-me, pois, queixar-me por qualquer coisa de coisa qualquer. Há dois dias que venho observando a montagem de uma grua enorme de construção civil. Nos meus tempos de atividade offshore eu chamaria tal operação de “ereção”. Agora eu evito, curiosamente, cautelosamente, usar o termo, mas não explico o porquê da cautela. Realizo que é obra de grande investimento, a julgar pelos meios em equipamento sendo empregues. “Só pode ser edifício” – concluo e desligo…

Leitura

É na leitura que encontro, ou pelo menos tenho encontrado, o alheamento que tanto almejo. Alheamento da (para mim) insuportável realidade que me rodeia, cotidianamente descarregada em vómitos de fel pelos noticiários da TV que a mim chegam em sons surdinados, através das frinchas das portas que fecho para me isolar. Concedo razão a quem me considere um tipo bem esquisito que se tranca num casulo recusando ouvir o mundo, como se ao mundo não pertencesse. Mas sim, sei-me escravo desse cruel planeta onde nasci, lá atrás no tempo, num exato momento em que multidões de semelhantes eram queimados vivos em dantescos rios de fósforo descendo dos céus em nome da paz…

Na leitura, convenientemente escolhida de acordo com o meu desejo e humor do momento, logro transportar-me a outras dimensões, necessariamente menos catastróficas, ainda que, aqui ou ali, muito sofridas por amores que findaram ou que nem se iniciaram porque não correspondidos, ou descrevendo o penoso atravessar de grandes dificuldades de sobrevivência, porque viver é uma aventura que pode ser extraordinária, vencedora, ou miseravelmente ordinária…

Feliz Aniversário!

Lembro de haver escrito há alguns anos nesta data, que “Aniversários são comemorações do envelhecimento, enquanto damos vivas à vida que conservamos”. A frase diz o óbvio, mas ajuda a aceitar, com alguma resignação, as ruguinhas a mais, as manchas senis na pele, as dores reumáticas…

Contava ela doces dezasseis, vejam vocês; E hoje ela completa setenta e seis! São meia dúzia de décadas em que, juntos, comemoramos seus felizes aniversários, eventualmente temperados com ingredientes bem amargos, porque os caminhos da vida podem ter trechos de piso por demais difíceis e penosos.

FELIZ ANIVERSÁRIO, COMPANHEIRINHA!  

Navegações

Na esteira de uma postagem feita por pessoa bem conhecida e considerada no FB sobre a série espanhola “Sin Limites”, tendo como atores principais Rodrigo Santoro e Álvaro Morte, respectivamente nos papéis de Fernão de Magalhães e Sebastian Del Cano em torno da primeira e gloriosa viagem de circunavegação, revisitei e tirei a poeira de uma coleção de doze volumes finamente encadernados e com o nome do proprietário impresso, ou seja, o meu nome. Os volumes foram adquiridos há 52 anos e não estou orgulhoso pelos meus (des)cuidados com sua conservação. “Fernão de Magalhães não traíu”, conta, timtimportitim, o nebuloso processo que levou o almirante luso a procurar o financiamento e a armada necessários a tão gigantesco e arriscado empreendimento junto à coroa de Castela, depois de goradas todas as tentativas de obtê-los do seu próprio rei. A coleção inclui “A Maravilhosa Viagem de Cabral” e outras pérolas de epopeias e tragédias marítimas, tais como “Camões – O Homem e o Mito”, “Preste João das Índias”, “O Naufrágio de La Meduse”. “Peregrinação” – volumes I e II, (estes totalmente impressos em original português arcaico), de Fernão Mendes Pinto!…