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Caricatura

Descreveste-me encurvado e envelhecido.
Encurvado, envelhecido e tristonho.
Caricatura de mim,
que de mim a natura redesenhou o corpo,
usando as ferramentas do passar dos anos.

Olha-me nos olhos e diz que me reconheces
Diz que nada mudei e outra pessoa eu não sou
Ajuda-me a encontrar-me, se perdido eu estou
no seio de um mim mesmo que desconheces

 

 

Enjoo

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Experimento uma espécie de enjoo neste meu hábito de escrever em voo. Até deu rima e isso deveria deixar-me pra cima – Olha! Rimei de novo. Será porque voltei a com mais frequência voar e isso já me está a enjoar? Pensando bem, os voos nada têm a ver com o meu enjoo e é afinal com o stress que me magoo. Retorno para Salvador, a caminho de mais um período de trabalho difícil. Volto contrariado e apreensivo, devo dizer-me e principalmente, convencer-me.
“Escrever”, escreveu Pessoa, “é esquecer; Esquecer a vida”. Mas, aqui para mim mesmo, eu não sinto que, enquanto escrevo, esqueça o tanto desta vida que me apavora, que me atormenta. Diariamente surgem novos motivos para sentir-me atormentado. Sou hoje muito mais velho que Pessoa, ao tempo em que ele escrevia seus textos e poesia e acreditava que tinha à sua frente muita vida para esquecer. Com esta idade, não me restam ilusões enquanto escrevo meus arrazoados e poesia sem reconhecível valor literário. Também não me acho capaz de camuflar os dramas da vida cobrindo-a com um fino manto mais ou menos habilmente tecido com letrinhas. Viver no segundo milênio é desafio insano. Meus netos vão estudar dezoito ou vinte anos para saírem feito nômadas à procura de sobrevivência nos cantos mais remotos do planeta, tal e qual o faziam hordas de famintos analfabetos ao longo da maior parte do século XX.
Naquele tempo, uma pessoa letrada como Pessoa, lograva sobreviver muito bem do seu trabalho de simples amanuense bilíngue, empregado de escritório de importação e exportação, com tempo de, ao cabo das oito horas regimentais, se perder da vida enquanto se embrenhava, criativo escriba, no emaranhado da sua admirável pluralidade.

Southbound

 

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Meu humor está muito diferente neste voo. Estou, desta vez, na proa certa em direção aos meus anseios. Antecipo a visão da minha recém-nascida netinha, Clarice, que ainda não tive oportunidade de conhecer. Isadora festejou dois anos sem a minha presença. Agora eu vou fotografá-las até fazer calo no dedo do disparador…
O voo dura só uma hora e pouquinho. Pouco tempo, muito tempo, depende de como gastamos esse lapso de tempo. Tempo tem toda a importância na minha idade porque  poderá não ser tão grande o saldo restante. A passageira do meu lado conversa em meias palavras e frases truncadas em inglês com seu companheiro de voo e, pelo que ouço, companheiro de trabalho, sobre a reunião que integrarão à chegada. De repente o tema da dupla deriva para amenidades culinárias indianas. Constato que o interlocutor da minha vizinha de assento é indiano ou paquistanês. De repente fico com apetite e desejo de saborear um delicioso rice and curry. De lagosta, porque não? Já que o desejo fica só no desejo, desejo comer arroz de caril com pedaços generosos de cauda de lagosta.Para beber, eu prefiro um geladíssimo vinho verde Alvarito. Na sobremesa, fruta, mousse, vinho do Porto, seguido de um bom café expresso e brandy Antiquarius
Acordo abruptamente para a realidade, pela força e susto de uma violenta ascendente que teria derrubado a louça e o que restasse do divino Antiquarius…

Perdido

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A costa à minha direita confirma que estou voando para sul. Volto à casinha em Niterói, sabendo que vou encontrá-la vazia. Vazia dela em pessoa, muito embora lotada dela em cada cantinho. Então, alegre ma non tropo, eu voo. E, enquanto voo, eu lhe perdoo por dela tanto ficar separado. Eu lhe perdoo por tanto ela me perdoar que dela tanto fique separado.No fundo não estou tão certo que haja perdão, senão simples conformação. Os anos correram céleres e ultrapassaram-nos na vida. A vida foi ficando menos viva, menos viva, ainda que viva. Acho que me perdi e não sei como continuar. A costa agora é montanha, mas sei que continuo rumado para sul, porque os meus sensores não detectaram nenhuma mudança de direção. Geograficamente não me perdi, mas este escrito ruma para lugar algum. Abandono-o, pois…

Lugar do Tomé

Praia de S Tome

São Tomé do Paripe, Bahia. Estou numa Pousada, única, dizem, habitável nestas paragens. Neste exato momento, decibéis explodem aqui na volta em nível que penso serem na razão inversa do QI dessa gente. A “musica” (?) repete sem parar “…é trinta e um, três, três, três, três…” em ritmo de bate estaca. Aprendo que é propaganda de um politico e ocorre-me que, fosse eu um eleitor, trataria de votar no pior inimigo desse tal de 313333. Parece-me numero de presidiário, bastante adequado para essa fauna.

Este é o segundo domingo da minha segunda viagem e estadia por aqui, sem que até este momento me haja ocorrido qualquer mote válido para uma crônica, depois daquela primeira expressando meus sentimentos no reencontro com a plataforma que ajudei a converter e onde vivi muitos anos de luta. O meu cotidiano por aqui, é entre ferragens de Sol a Sol, de segunda a segunda, sem subsídios para compor um texto com atrativos.

Por outro lado, aproveito como nunca todos os momentos livres e inspirações súbitas para prosseguir no meu projeto de um livro cuja preparação está em boa marcha. Se separo toda a inspiração para criar textos para o livro, só as sobras seriam aproveitadas para alimentar o Blog ou algumas publicações no Face Book. Essa é, sobretudo, a razão da minha ausência de diversos sites e Blogs de Literatura dos quais sou integrante, muito especialmente dos que foram criados e são mantidos pelo admirável escritor, editor e poeta goiano Adalberto de Queiroz.

Acontecimento de destaque absoluto no período: O nascimento da minha netinha Clarice, sexta na série de netinhos que ganhei das minhas filhas Mônica e Vanessa. Vale repetir que, não tendo tido qualquer influência na escolha de nomes para os meus americanos, fui atrevido em sugerir e acabaram sendo aceites os nomes de Isadora, em homenagem a Isadora Duncan e Clarice em homenagem a Clarice Lispector, duas poderosas mulheres a cujo talento sou completamente rendido.

Almas sem sombra

 

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“A Alma aqui não faz sombra no chão…” (Clarice Lispector sobre Brasília)

Eu também acho que aqui a minha alma não faz sombra, nem mesmo quando o sol penetra direto pela janela deste tubo alado, selado, lotado de outras almas sem sombra que voam para o mesmo destino. Meu destino é, porém e na verdade, um desatino, desatino, porque sinto-me aproado à recíproca da proa que desejaria de fato seguir. Isso faz de mim um fulano sem carácter que é incapaz de tomar, contra o tudo de alguns poucos todos, os rumos que lhe dariam relativa felicidade no restante do que resta.
Mas, pondero, se continuará sendo relativa a felicidade que espero nesse hipotético rumo inverso, preciso então relativizar as mais valias? Isso não parece fazer muito sentido, mas tudo em mim é assim – sem muito sentido.
A estridente voz na boca de ferro avisou do início da descida pro tal destino em desatino, quebrando minhas perigosas e estrambólicas lucubrações de sombria alma desprovida de sombra…

Foi linda a festa!

Arquitetura

O brilhantísso, criativo e emocionante espetáculo de encerramento da Olimpíada ontem à noite no Maracanã, serviu para reafirmar o que vimos na abertura: A indiscutível genialidade e capacidade de todo esse povo que anualmente produz e monta a maior peça a céu aberto do Planeta, que são os desfiles das escolas de samba durante o carnaval! Em nenhum momento tive duvidas de que o show seria inesquecível!

 
Por outro lado, apavorantes e sangrentos atos de autêntica guerrilha urbana no decorrer das semanas que antecederam o início dos Jogos inundaram-me de extrema preocupação e de incredulidade quanto à segurança de tanta gente. Cheguei mesmo a escrever na minha folha do Face Book, que não aconselharia nenhum dos meus familiares e amigos a virem ao Rio de Janeiro para o evento. O aparato de segurança reunindo forças armadas e polícia aparentemente funcionou, malgrado alguns acontecimentos escabrosos e só vistos em países em guerra, como o intolerável ataque na Vila do João a uma unidade da Força Nacional. Receios de muitas mais coisas muito ruins foram ficando para trás e não há tanto, afinal, do que nos queixarmos em termos de segurança. “Só” têm que garantir esse mesmo nível de segurança ao cidadão depois de terminarem todos os eventos em curso.

 
Confesso haver sido um áspero crítico da derrubada do elevado da perimetral, por considerar essa derrubada tão negativa quanto a sua construção. A via, feinha, deselegante, tinha tudo a ver com uma área portuária feinha, deselegante. No entanto, era uma via importante e poderia seu visual ser muitíssimo melhorado, à semelhança do que tive oportunidade de admirar em Singapura, terra de superlativos, que apresenta incontáveis vias rápidas elevadas passando em locais altamente turísticos. Os elevados são cuidadosamente pintados, decorados, adornados com canteiros floridos, dentre outras formas de suavizar o aspecto frio e triste dessas coisas de betão e ferro.

 
Enfim, o elevado foi derrubado, substituído por tuneis que funcionam bem e toda a área portuária se transformou de forma radical, com resultado urbanístico excelente. Tenho até vontade de dizer que só está faltando algo como uma “Opera House” ou complexo de Teatros de arquitetura moderna, para que me sentisse ainda mais propenso a comparar todo o resultado com o que vi e vivi na admirável cidade de Singapura. Caminhei numa dessas tardes de feriado municipal da Praça XV até à Praça Mauá através das áreas da Marinha, cujas instalações estavam abertas para visitação de Navios de guerra, submarinos, dos magníficos Navios-Escola de Portugal (NRP Sagres) e do Brasil (Nve “Cisne Branco”) e até de uma réplica da Nau de Cabral. A multidão não permitiu fazer as fotos que gostaria, mas lá voltarei com mais calma para visitar os museus e clicar muito mais, contar muito mais…