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A histórica fragata, em sua privativa doca seca, continua sendo atração a mostrar aos visitantes que a não conheciam e muitíssimo surpresos e encantados ficam durante a visita. Neste domingo forcei minhas combalidas pernas a escalar a prancha de portaló e as íngremes escadas internas, para acompanhar e guiar familiares de Coimbra. Os canhões e baleeiras estão no cais, removidos para trabalhos de manutenção, a mastreação alta assim como todo o poleame foram temporariamente removidos. Do mastro da mezena, só as mesas das enxárcias e um vazio que incomoda quem conhece o navio em sua íntegra. A majestade remanesce, todavia…

Bocage

Neste dia em 1765, nascia Manuel Maria Barbosa Du Bocage. Aqui mesmo, junto do estuário do Rio Sado, bem pertinho de onde me encontro neste momento. Em tempos pré Covid, quando ocorria a oportunidade de estar por aqui nesta data, não faltava aos mais importantes eventos em sua memória. As comemorações bocageanas estão realmente em curso e vão prolongar-se até dia 30. No entanto, em que pese minha admiração pelo grande poeta, não me sinto com condições físicas para encarar…

Agustina, Agustina!

Confesso minha enorme dificuldade para, conquanto seu grande admirador, entender, na sua plenitude, Agustina Bessa-Luis. Acuso-me, pela frequência com que me perco no decorrer do texto. Retorno, retomo, para pouco mais tarde dar por mim no meio do nada, sacudindo a cabeça em idiótica atitude. Em legítima defesa, tentando encontrar-me em sintonia com a autora, eu leio alternadamente os textos de vários dos seus títulos, de forma concomitante! Isto também não deu muito certo e eu acabo por concluir ter, ou estar com falta de capacidade em razão da idade. Agora estou com medo dela – acho que aterrorizado até!…

Madrugar

05:00 da madruga, noite escura, escuríssima. Cama vazia dela, da minha companheiríssima. Eu durmo mal e incomodo seu soninho com meus gemidos. Encontro-a deitada no sofá do escritório, explorando a net no seu Ipad. “Desde as 04:30”, diz-me ensonada. Prometo-lhe ir em busca de ajuda mais efetiva para as minhas mazelas, que, obviamente, não estão sendo tratadas como deveriam. Segunda-feira está agora ante nós, com céu encoberto e ameaça de chuvicas. Sei que precisamos de movimentar-nos, forçando as doloridas pernas, porque parar não dá não.

Vamos lá…

Antologia

Nos meus tempos de kandengue, quando na impressão e encadernação de um livro ainda usavam técnicas de Guttenberg, se eu adquiria um novo livro, preocupava-me em separar todas as folhas com uma faquinha, para que fosse possível ler todo o volume, ou, caso não o lesse, não ficar envergonhado se a obra caísse na mão de alguém a quem havia afirmado a pés juntos tê-lo lido, sim senhor!

Cheguei a casa com a Antologia da Poesia Angolana intitulada “Entre a Lua, o Caos e o silêncio: a Flor” e comecei imediatamente a folheá-la, no que fui forçado a separar muitas das folhas levemente coladas umas às outras pela tinta avermelhada aplicada na periferia. Enquanto as soltava, soltava recordações, boas e más, da já longínqua juventude.

Na primeira e rápida folheada, já fiquei com a satisfação de considerar bem aplicados cada um dos apenas 20 euros pagos pela obra. Boa informação sobre as formas de Oratura, ou Arte verbal, sobre os idiomas nacionais angolanos e, muita, extensíssima e rica poesia cantando a terra e suas gentes por autores que remontam aos séculos XVII e XIX, até aos nossos dias, ao longo de 679 páginas!

Aturdido

Aturdidos são meus versos, muito mais que a minha prosa poética. Em outros tempos pretéritos, eu beberia em busca de inspiração e coerência, mas, como sempre, só conseguiria perder-me de ambos. Licores fortes, destilados diversos, destilavam-me os medos dos perigos emboscados nas sombras da ameaçadora mata. Sobreviver era preciso. Ainda é, por tantos outros perigos igualmente letais. Viver é uma aventura perigosa, sim, como não? Até hoje rejeito qualquer explicação do porquê da morte, que, dizem, é inevitável, salvo para os imortais, entre os quais eu teimava em incluir-me. Treta que em parte abandonei, por força dos meus relativamente recentes padecimentos físicos…  

Setembrando

Amanheci em vãs tentativas de escorraçar o setembro, que julgo ter chegado muitíssimo adiantado. Meus meses, desespero-me, não poderiam transcorrer assim, em acelerado, num tempo em que os meus membros se encontram com tão desacelerado desempenho. Recebi, pois, o setembro, com evidente e impotente desagrado…

Ser Livre

A “Liberdade” continua a ser um papel velho deteriorado pelo tempo e pelos tempos, como aliás me lembro haver sido ao longo da minha linha de vida de setenta e sete anos. Quando julgamos gozar de liberdade, não tardamos a concluir de que se trata, afinal e tão somente, de uma liberdade ilusória, relativa, precariamente concedida pelos detentores do poder, a quem concedemos poderes para, coercivamente, na porrada, reprimir nossos anseios de autodeterminação, livre arbítrio…

Um dia eu escrevi, questionando como seria ser livre:

“Sei que querer é poder, ou pelo menos assim sempre me disseram. Então, eu quero ser livre porque eu decidi ser livre, logo, eu sou livre e pronto, dou alegremente um viva à minha liberdade! Mas, aos poucos, fui-me apercebendo que estava percebendo uma realidade assim meio que encarcerada. E que eu estava e estou do lado de dentro desse encarceramento, posto que é o lado em que cada adulto se olha interrogativamente como se perguntando onde é a porta de saída. Não, o meu querer não tem todo esse poder que o meu parco poder parecia querer.

À liberdade, à liberdade!

Brado eu, voz livre e forte!

Mas, oh triste verdade…

Livre, livre, só mesmo na morte…”

Fobias

Amanheci meu sábado sem sinais de que o aparente resfriado tenha descido das vias nasais para a garganta. Acredito, portanto, tratar-se da minha velha alergia, de volta após desaparecer graças às fortes doses de anti-inflamatórios ingeridos por conta dos meus problemas de artrose. Dormi em cama e quarto separado da minha companheirinha, por receio de lhe passar o tal aparente resfriado. Mas a falta dela na cama, mais a cama estranha, mais o colchão de molas que me pareceu uma tarimba, juntaram-se aos habituais elementos incomodativos para uma noite mal dormida. Abandonei a cama pouco depois das 06:00, para, no escritório, confirmar que estou vivendo uma fobia aos meios eletrônicos de que disponho: Computadores, I pads, smart phones. Se os ligo, sinto-me compelido a “uma vista de olhos”, mesmo que rápida, por sítios que são hoje campos de batalha pejados de minas explosivas e de nauseabundas fossas de merda…

Degeneração

É implacável, o tempo. Os dias vão-se escoando pelos drenos da vida, o corpo perde paulatinamente suas resistências, a mente as capacidades. As coisas do mundo deixam de interessar, as complexas ligações eletroquímicas da pensatrix com os órgãos vão-se corrompendo, interrompendo. Mas porquê tão longo sofrimento? A sério: O nosso corpo deveria vir equipado com uma chave geral que nos permitisse autodesligar-nos, no caso da irreversibilidade de uma doença do tipo da Parkinson…

Rest in peace, Mário!