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imageAproveitando algumas horas livres antes de sair do hotel para o aeroporto, rodei algumas poucas milhas pela 59 para Norte até Humble, onde existe um Centro Comercial bastante atraente, o Deerbrook, que inclui lojões como Diller’s, Macey’s e outros mais. Fui assaltado pelo mesmo sentimento de cansaço e total desinteresse que experimentei semana passada durante uma visita à gigantesca, antiga mas sempre renovada Galleria. Recuei vinte anos no tempo, para recordar o meu total desbunde quando entrei na Galleria pela primeira vez. Queria dispor do poder de comprar tudo o que via e também o que não conseguia ver. Desta vez, a minha única atração e desejo foi para um impossível Tesla de US$85K!

Do outro lado da 59, entrei no Best Buy local e saí exatamente com a mesma frustração que senti quando estive numa Fry’s em Dallas há alguns dias: Nada do que vi exerceu sobre mim qualquer tipo de desejo. O meu interesse em tecnologia, reconheço, praticamente se evaporou, acompanhando um pavoroso desinteresse generalizado. Será o princípio do fim do (meu) mundo?
Sei que não é, porque mantenho o mesmo interesse pela minha mais-que-tudo. Ou será que a declaração de amor pela mais-que-tudo é resultado desta taça de cabernet? Amanhã, à chegada, os efeitos do cabernet terão evaporado e saberei se continua legítimo o meu interesse pela menina da minha vida.
Acho que vou tomar uma porrada…

Thanks Giving

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A mesa está posta, o perú assa no forno, os demais quitutes do dia estão devidamente preparados para a função, que aqui na casinha da Monica e do Oscar em Coppell, acontecerá logo mais ao cair da noite. Às nossas quatro crianças juntar-se-ão mais duas do casal de amigos que foi convidado para a tradicional ceia. A minha inesperada presença fará alguma diferença em relação aos anos anteriores.

Pelo programado nesta viagem, eu deveria ter embarcado de volta ao Rio na segunda feira passada. O voo foi cancelado e fui convocado para testemunhar testes de equipamentos que acontecerão durante a próxima semana. Por isso, o dia de ontem encontrou-me rodando de volta para Dallas pela I-45, desta vez muito congestionada pela mesma razão que aqui me trouxe.

Agradeci e assinei a toalha, deixando uma mensagem para a minha mais-que-tudo, que mais uma vez abandonei completamente só e aprisionada num apartamento na cidade de Niterói, estado do Rio (ou deverei chorar?) de Janeiro…

De Houston

Aqui em Houston, Texas, acordo para mais um dia de trabalho que espero seja o ultimo desta missão. Não ligo a TV, para evitar escutar baboseira que tanto me incomoda. O “Homem” ganhou mesmo sendo uma completa nulidade política, ou exatamente por sê-lo? O fato de ser eu um desafeto de todos os políticos tradicionais, carreiristas de qualquer tendência, deveria até levar a regozijar-me com o resultado. Até agora, porém, na minha personalíssima análise, só posso prever um processo de impeachment antes da metade do mandato, previsão essa que eu faria de igual forma caso a dona Clinton houvesse obtido a vitória. Os dois candidatos eram completamente inadequados.
Agora enfrento ansioso o meu dia, incluindo nele as preparações para deixar o hotel amanhã cedinho e rodar os 380kms que me separam da alegria de rever meus netinhos americanos nas cercanias de Dallas…

Fado-Canção

Meus versos em tom menor

expressam muito melhor

da minha alma os momentos

Em acordes dissonantes,

melódicos, dilacerantes,

eu disseco meus tormentos.

Meus versos incompreendidos

tão ocultos, tão sofridos,

que oprimem o meu coração

Em tom menor os componho

Em tom menor os tristonho

nesta singela canção…

 

…E agora em tom maior

eu te digo que te adoro!

Mesmo temendo o pior,

Espero pelo melhor,

no teu coração eu me ancoro…

…E se teu coração é meu porto

aberto pra me abrigar…

Exultante nele aporto,

em busca do teu conforto,

até a tempestade amainar.

 

…E em tom maior continuo

meus versos então concluo

desta singela canção…

E adormeço de mansinho,

instalado bem num cantinho,

no fundo do teu coração.

 

Silêncio

Devo reconhecer-me silencioso demais, introvertido demais, mesmo que em alguns curtos momentos possam tomar-me por extrovertido e falador, especialmente após degustar algumas taças de um bom vinho. Avassaladora é, todavia, a sensação de impotência e completa inutilidade pessoal que se alastra e se espraia sobre mim. Todas as burradas e péssimas decisões cometidas ao longo da minha vida emergem agora, avançam e me sufocam num tsunami de merda com força descomunal. Poderá ser que toda esta autoimolação e frequência de uma espécie de ato de contrição, estejam a aflorar por resultado do recente passamento de pessoas queridas da família e de algumas proeminentes personalidades de idades tão próximas à minha própria idade, que acabo dando por mim “numa linha de frente” para abotoar o paletó.

Aniversário

relogio

Oito horas da noite na Plaza Mayor de Salamanca, a temperatura está em agradáveis 16C, sem vento, sem chuva. Uma pequena multidão converge para a Plaza e arredores. As pessoas  circulam, conversam, ocupam restaurantes, esplanadas, tavernas, cafeterias. Parecem felizes e despreocupadas e nós, igualmente felizes e despreocupados pelo menos no momento, a eles nos juntamos nessa congregação de felicidade e despreocupação, mesmo que aparente, mesmo que momentânea. Mas Salamanca é mesmo um lugar prodigioso. Um concentrado histórico transbordando cultura em torrentes ao longo das estreitas ruas que calcorreamos à sombra de graníticas construções contendo universidades, bibliotecas, centros de estudos. Inspiramos, deleitados, toda essa atmosfera de aparente excelência, enquanto fazemos jus à excelência comprovada das patas negras, das tapas, da cozinha mediterrânica. E do vinho, senhores, o bom vinho ibérico.

Neste ambiente, recuamos quarenta e oito anos nas nossas linhas de vida e demos as mãos, com os dedos bem entrelaçados, como se para confirmar que aqui continuamos. Vivos e unidos. Vivos, unidos, sobreviventes de tenebrosos acontecimentos nas ultimas décadas do século XX, adaptados às profundas mudanças operadas neste ainda mais tenebroso início de milênio.

“Carne ou frango”? A pergunta, feita pelo aerogajo para inicio de um jantar servido às 01:00 da madruga, soou-me como se estivesse dentro de um avião de uma das companhias americanas e não na “minha” TAP, que até um ano antes eu defendia como uma das poucas que mantinham, na classe econômica, algum resquício do tratamento de outrora. Optamos pelo frango que, frangamente, estava ruim pra caramba. O arroz estava comestível, contudo, e havia um pãozinho – um pãozinho apenas isolado no meio da pequena bandeja! Alguém lembra dos tempos em que passava o cestinho várias vezes oferecendo mais pão? Comi o pudim para adocicar a minha madrugada. Na volta, embarcaremos com sanduíches, etecetera et al.
Sofro atrozmente nestes voos longos, pela minha total incapacidade para dormir. Leio, mas não entendo o que leio. Penso, sem perceber que penso e o que penso. Nulidade absoluta, é como me sinto após meia dúzia de horas de viagem. Na biblioteca do Kindle escolho releituras como exercício para o meu cérebro de mosquito – debalde: O meu cérebro parece perder para um mosquito…

Update: Este texto seguiu a minha recente mania de escrever em voo e retocar/revisar depois dos pousos, antes de postar. Porque o cérebro não havia voltado ao tamanho normal, deixei escrita uma inverdade, que a Nina não tolerou: Como me atrevi a dizer que a “nossa” TAP nos serviu um jantar na madrugada, se foi um desjejum que na madrugada nos foi oferecido?! Aqui fica a correção – pousamos em Lisboa às 03:00, hora de Brasilia.