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Alma Minha

Meu espaço gerador de ideias, meu outrora tão confortável como seguro casulo por mim próprio criado e onde habitualmente me sentia incontestável senhor daquém e d´além mim, está desolador, rochoso, vazio, nada acolhedor e, dir-se-ia, resvalando fora da minha influência e comando. Assim, conquanto no espaço eu entre amiúde, dele saio em seguida, invariavelmente amargo e sem perguntas a tantas questionáveis respostas. Naturalmente, debito a carga do meu caos ao caos. À tirania da vez, que usa a peste para me privar de ser um ser livre. Preciso convencer a minha alma a aceitar a nossa triste condição. Será difícil, porque, eu sei, a minha alma nunca irá submeter-se…

Na noite de ontem, percorri as ruas da amargura daquela mesma Lisboa que por esta data no ano passado, trepidava em toda a sua universalidade de velha novíssima cidade aberta, atraente e gostosa de se visitar e curtir em todas as suas peculiaridades. Agora, mingua a iluminação oferecida para o Natal deste ano de peste. Tudo está mais pobre, sem brilho, sobre as calçadas portuguesas vazias não se escutam os sons da multitude de idiomas e culturas, dos habitualmente muitos comediantes e músicos de rua, estátuas vivas e outros street performers. Lojas encerradas, esplanadas e restaurantes que ainda sobrevivem a esta tragédia desoladoramente desertos, pontos de interesse na penumbra. O som lamentoso de um solitário violoncelo apressou meu regresso e influiu na minha dificuldade para adormecer…

Impensável

Pensamentos impensáveis?

Ocorrem-me com frequência,

mas ofereço-lhes resistência.

Posto que impensáveis,

por certo não serão exteriorizáveis,

sendo por mim próprio censuráveis.

Filtrados, meus impensáveis pensamentos

assustam-me por tão reveladores de mim…

Caminho…

…e, enquanto caminho, vejo marrecos em pequeno bando, no que resta dos lagos de águas pluviais da várzea, remanescentes das últimas chuvadas. Os patos bravos, pensei enquanto os observava, são felizes com o tanto que a natura lhes faculta para a sobrevivência. Não precisam de casas com certificação energética classe A de caros impostos municipais. Dispensam camas com colchões tempur, roupeiros de complicado design para as roupas e calçado de griffes estupidamente caras. Olha só, como eles convivem, socializam sem distanciamento, copulam sem grilos sob esse azul de brilho incomparável! Que máximo: Eles não têm dinheiro, não montam árvores de Natal e não precisam sair por aí adquirindo idiotices douradas para trocar com os familiares e amigos por outras idiotices douradas que logo descartarão em infectas lixeiras. Infectas e poluidoras. Invejo, pois, os marrecos, por tudo isso que eles não precisam e, ainda por cima, suprema capacidade, são anfíbios e voam!!  Marrecos voam sem se preocuparem com atrasos e cancelamentos!  Ah! Como eu invejo os marrecos…

Acordei macambúzio, porque o sistema que pago me atraiçoou e fiquei sem sinal no momento da ignição do segundo estágio, logo a seguir à ejeção do primeiro. Tenho uma especial fixação em ver o foguete reentrar e pousar de volta à terra, feito gibi que virou realidade! Gravação não tem graça não.

Macambuzeei mais um pouco através da vidraça, buscando nos nevoeiros que me cercam, respostas para as dúvidas próprias de idoso nascido na primeira metade do século passado: “Vive la diference!”, diziam-me em bom francês! Eu tinha uma pilinha e duas bolinhas, com serventias a saber: Para se constatar que era machinho, para fazer volume na calça, para mijar em pé. Com o tempo, a natura por si própria me ensinou a mais sublime das serventias dos meus penduricalhos, que tantas e tantas alegrias e prazeres nos deram, sendo esse “nos” relativo a mim próprio e às minhas eventuais e definitiva parceiras de maravilhosa feminilidade!

Mas, se já em outros tempos me haviam taxado de “porco chauvinista” – coisa inventada por uma porção feminina com resistência a ser feminina e daí o queimar dos suportes das maminhas deixando-as soltas à gravidade, enquanto nós, os machinhos, reforçávamos a suportação dos balangandãs substituindo as cuecas samba-canção por “slips” ou “trouces” de seguridade mais confiável, as coisas no presente estão coisando ao extremo.

É que agora querem fazer-me acreditar que devo envergonhar-me da minha condição de homem com H porque isso faz de mim um homofóbico heterocentrado sexista, merecedor do repúdio universal…

Ofídico

Mordi de novo a língua. Mordi mesmo, fisicamente, sem metáforas. Como das vezes anteriores, irá doer-me e deixar-me de ovo virado. Concordo que ovo não tem nada a ver com a língua, mas aqui já é com metáfora. Posso até desvirar o meu metafórico ovo mas aquela dor na língua já se espalhou e dói-me o céu da boca também. Se eu fosse um sujeito muito ruim e venenoso, ficaria até receoso. Aqui estou eu, pois, a domingar um forçado recolher e ainda tenho que sofrer a dor da minha língua, que teimo em querer comer. Confesso-me com uma tremenda vontade de soltar o verbo sobre uns políticos, mas recuo com prudência, não vá eu morder minha língua…

Cruelty

A Nina levantou-se, noite escura, nesta madrugada de nevoeiro e chuva fraca. Notei sua falta ao estender meu braço para encontrar o frio vazio dela na porção de lençóis onde deveria achar seu calor. Arrastei os chinelos até a encontrar. Disse-se cansada de estar na cama acordada e ali estava ela, explorando as internêtas da vida com o seu amado e adorado “bichinho” IPad. Lembrou-me de que o absurdo reservado para este fim de semana, não é só um sonho ruim: Recolher obrigatório, proibição de circulação a partir das 13:00 de hoje e de amanhã! Encolhi os ombros, impotente e já saudoso dos doces tempos de relativa liberdade em que em liberdade eu era crente.

Sentei, por meu turno e abri a caixa do correio eletrônico. Um ex colega do mar e de muitos transes de ventura e desventura, escreve-me que WLJ está perdendo para o câncer com que luta há já dois ou três anos. Aquele escocês enorme, incansável, brincalhão e habitual vencedor, está, afinal, sendo vencido! É a vida, tão bela e tão cruel…

Cor cinza

Quedei-me de olhos fixos na chuva desta manhã. Cinzenta, sim, mas nem tão triste quanto triste costuma ser uma chuvosa manhã feito esta. No meu despertar não pintou desânimo e senti-me capaz de recusar para mim a carga das pesadas taleigas de maldade e de ódio que cotidianamente me são oferecidas em meio aos meios que uso! Sou, afinal e por enquanto, livre para aceder ou não aos ditos meios, enquanto existirem. Os radicalistas políticos e religiosos ganham terreno e irão extingui-los em futuro que se aproxima tão rapidamente, que periga ainda acontecer na minha presença neste vale de lágrimas e de nervosas histéricas gargalhadas. Para ilustrar esta postagem, fiz uma foto da monocromia chuvosa. Abandonei-a, porém, para privilegiar o colorido de outono de um outro dia menos chuvoso.

Luna

Ei-la!

Mesmo ratada,

continua linda,

a descarada!…

Todos os santos

De todos os santos foi o dia de hoje. Dia tristonho, cinza, nada convidativo, que só enxerguei através das vidraças. As tiranias estão soltas por aí, um pouco por todo o lado, usando a peste em curso para dominar e manietar. A desgraça que por aí grassa só não é tão espetacular e chocante quanto o tsunami de Lisboa neste dia em 1755, porque este não é um desastre instantâneo, mas de efeito retardado em desemprego, miséria, fome e morte, que em número de vítimas não lhe ficará atrás…