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Hoje de Novo…

outrosmoinhos (1 of 1)

Da casa da minha irmã na zona rural de Palmela até ao bairro do Liceu em Setubal, são cerca de treze sinuosos quilômetros por entre velhas e novas construções, terrenos e pedreiras nas pitorescas vertentes dos montes, caso optemos por um desvio pela velha e estreita estrada da Baixa de Palmela. Velha, estreita, mas de piso excelente e com boa sinalização, se considerarmos tratar-se de uma via que poderíamos chamar de rústica. No último sábado dia 17, a meio da tarde e no momento em que dezenas de pessoas eram imoladas no inferno do Pedrógão Grande, observamos que o termômetro do pequeno C3 exibia espantosos 47 graus celsius de temperatura externa, enquanto o céu escurecia e ventos fortíssimos eram sentidos. Logo que deixamos o carro, notamos que os fortes ventos estavam aquecidos como se houvessem passado por unidades térmicas! Negras formações de nuvens deslocavam-se rapidamente, enquanto extravasavam sua enorme carga estática em relâmpagos e trovões. Nem uma gota de chuva caiu nas áreas que percorremos, sugerindo que as gotículas que formavam aquelas pesadas nuvens terão sido evaporadas pelo intenso calor…

De volta aos tempos de infância, recordo-me viajando em transportes ferroviários propelidos por locomotivas a vapor tendo por combustível a lenha e o carvão soltando fagulhas. A velha linha de Barca d’Alva serpenteava ao longo da margem direita do Rio Douro em direção à fronteira de Espanha, hora suspensa sobre o impressionante vale de socalcos entalhados nas encostas plenas de produtivos vinhedos, hora através de florestas de pinheiros resinosos. Acreditem-me, não me lembro de acontecerem incêndios florestais. Muito menos com a trágica constância e magnitude do que neste momento vivemos. Algo de muito grave se passa, seja pelas condições climáticas, por erradas políticas florestais, por falta de cidadania e amor à terra natal, por tudo isso junto…

Precisariam os velhos Lusitanos – Hoje de Novo – assumir Portugal?.

 

—Mexeste no meu celular!

—Não, não mexi…

—Mexeste sim! Eu não o deixei nesta posição!

—Pode ser que tenha se deslocado, porque mexi na bagunça em torno dele.

—Xereteaste o meu telefone, isso sim!

O homem riu, enquanto manuseava seu próprio celular e negava veementemente.

—Qual é a graça? Acho um baita de um desrespeito invadir a privacidade do meu telelé!

O homem deixou de rir e reagiu com mais veemência elevando a voz e chapando seu próprio celular contra o tampo da mesa:

—Porque diabos haveria eu de querer policiar o teu celular?!!…

—Isso!!! Dás na mesa o soco que querias dar na minha cara!!

O quiproquó do velho casal parecia, portanto, desaguar para uma acusação de violência doméstica e o homem imaginou a mesa sendo levada para um exame de corpo de delito e formalizar na mariadapenha uma queixa por agressão física do seu tampo. A mulher saiu de cena para voltar em seguida e anunciar que ia sair para uma caminhada.

Saíu, bateu a porta, mas deixou o seu celular à mão sobre a mesinha da sala!! Nesse ponto dos acontecimentos, o homem esforçava-se por entender como tão fútil razão pudesse dar lugar a uma altercação e amuos mais próprios de crianças que de adultos idosos. Até que lhe ocorreu que a exagerada reação da esposa só poderia ter um motivo: Poderia muito bem haver coisa naquela coisada!…

Olhou para o celular e sentiu um desejo irresistível de, agora sim, devassar todos os segredos porventura ali contidos. Para isso, pensou, é preciso medir com acurácia e desenhar num papel as coordenadas do celular em relação a algum ponto de referência na mesa. Também era necessário medir rigorosamente o ângulo do aparelho em relação à aresta da mesa e para isso era necessária a utilização de um transferidor que não tinha à mão…

Mas era, enfim, muita mão de obra e o homem acabou desistindo dessa besteira e sintonizou a televisão no canal dos mistérios da Agatha Christie.

Pelo sim pelo não, no seu caderninho de apontamentos escreveu: “Comprar um transferidor”…

 

 

Não nego minha admiração por mulheres inteligentes. Inteligentes e que tenham a inteligência de saber usar a inteligência. I mean: Ter um QI fodástico não basta para ser irresistível. Mas confesso que não faço nenhuma ideia de como nasceu minha vontade de falar das mulheres inteligentes, nem sei como dar continuidade a este texto. O mote deve ter origem em algo que li, ou será porque adoro mulheres que escrevem um texto bem temperado com deliciosos palavrões, assim tipo da minha querida Vanessa Ornella, ou da Cynthia Feitosa, ou ainda da Mariliz Pereira Jorge, todas elas desbocadas-inteligentes. Ou serão inteligentes-desbocadas…

Só não gosto quando elas perdem tempo a escrever sobre ou mesmo a apedrejar político. Jogar pedra em político tem o mesmo efeito que jogar pedra num poço de merda.

Despedida

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Devo reconhecer-me macambúzio nestes últimos dias dos poucos dias que me separam do meu novo e aterrador status. Por enquanto, acho-me caminhando para o cadafalso onde serei executado como elemento produtivo, útil, útil…até que a minha cabeça role no patíbulo e pronto.

Não culpo ninguém, todavia, porque é orgulho meu o indelével orgulho de haver sido prestigiado pelos meus empregadores e colegas de trabalho até ao derradeiro minuto. E esse derradeiro minuto acontecerá porque foi minha e tão somente minha própria vontade e decisão de retirar-me, após dezenas de anos de dedicação e luta nos campos de petróleo no meio do mar, ou mais recentemente, em projetos ao petróleo ligados. Aos que comigo trabalharam, os meus riscos enfrentaram, me apoiaram e prestigiaram, recebam o meu reconhecido agradecimento.

Agora, cruzemos essa fronteira, mesmo que por uma vereda psicologicamente agreste, para que iniciemos uma nova era de atividades amenas e dedicação às amadas letrinhas. Assim falei hoje.

Agora, que meu tempo está no fim

e vejo a porteira mui cerca de mim

para que por ela eu saia sem retorno,

À fé que meu coração dá em disparar,

sinto que é mais pesado o meu respirar

enquanto meu olhar passeia em torno…

 

 

 

Amazing

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O celular gritou a chegada de uma mensagem no whatsapp, interrompendo a algazarra atroz do meu silêncio, que até agora apenas de forma suave era aqui e ali quebrado pelo digitar no teclado, das ordens para as funções no Autocad.  A mensagem era de um colega no  descanso do seu fim de semana e continha um vídeo que me dispus a abrir para alegrar meu sábado de trabalho solitário. Rieu, no habitual e estrondoso ápice do seu gigantesco show, lançou no ar as notas singelas de “Amazing Grace”, geradas pelos violinos, flauta e instrumentos de fole .  A enorme sala de engenharia completamente deserta e sombria iluminou-se, pondo a descoberto todos os seus e os meus  fantasmas, que flutuaram até junto de mim para consolar-me no meu patético choro. Conto nas duas mãos os dias que restam para o meu farewell  a este espaço bagunçado e a tal ponto familiar que, por antecipação,  já sinto sua falta como uma severa perda…

Meus olhos

O olhar que encontro no meu olhar

não é igual ao olhar que tinha d’antes

Acho-me inexpressivo no meu fitar

Meus olhos sem brilho e a lacrimejar

parecem inquietos. Irrequietos. Errantes

 

Reconhecer-me a mesma pessoa não é tarefa fácil quando, quotidiana ocorrência, me acho em frente a um espelho para tarefas de higiene pessoal. Descrevi em outras ocasiões, de forma mais ou menos contundente, a que ponto me perturba descobrir uma mancha de pele que juraria haver aparecido nas ultimas horas, ou verificar que o pneu que tinha estourado voltou a inflar. O mais novo foco de desgosto são meus olhos, depois que duas pessoas de família muy amigas me dizerem que as cirurgias às cataratas me deixaram com olhos de chinês. Terei eu olhos de china? Mesmo? Tem cura? Mesmo na minha idade?…

 

Flatulências

“…Vaguear pelo absurdo revitaliza-me, pela via do que de mais absurdo tem a minha absurda alma. O absurdo contém doses massivas de ilógico, profilática medicação contra os males da fria lógica que contamina e aflige o meu cotidiano.”

O pensamento acima encontra-se em algum ponto de um projeto de livro que poderá jamais passar de projeto. Discorro sobre as minhas longas caminhadas pelos absurdos que povoam o meu mundo interior e que, não raramente, levam a choques frontais em belicosos momentos nos quais sou destratado por mim próprio, vítima e algoz. Mas são também frequentes os acessos de puro gozo numa cadeia de orgasmos seguidos, ao explorar-me nas minhas fraquezas enquanto exploro as fraquezas dos que me cercam no grande circo.

 

Acabo de cair na gargalhada com a sonora flatulência do aussie da báia ao lado, seguida de um…”Oh Dear…”, logo emendada noutra ainda mais ruidosa, imediatamente coroada com um “Ohrrrrrr! Fuck me dead!!!!”. Estou até agora na dúvida por qual dos orifícios…bom, deixa pra lá!