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Far niente musical

Está ali, ao alcance do admirar do meu olhar – mudo e respeitoso olhar! O instrumento guitarra que estou a anos-luz de dominar ao nível da forma a que me atrevo imaginar dominar. Estudo acordes que a minha mão não logra alcançar, digitação de exercícios de solos impossíveis para meus artríticos e emprerrados dedos, comandados por um cérebro que julgo reduzido a meia dúzia de heróicas estoicas remanescências neuronais, as quais bombardeio a cada momento com pentatônicas que sempre acabam em frustrantes cacofônicas… Voilà! Frustrado por insuportável e vexante sentimento de insuficiência neuronal, insisto todavia e prossigo no uso dos energéticos complementares que logro separar e extrair das minhas próprias vaidades, para auto alimentar-me, autoalimentando meu ego. Por isso eu sonho com mais fancy guitars que eu possa pendurar nas paredes do studio. Isso é, em última análise, um alimento para a minha vaidade, enquanto tento convencer-me a mim próprio e  as pessoas do meu núcleo, de uma hipotética proficiência musical que na realidade atualmente não possuo.

Mas hoje é Domingo – dia semelhante a todos os outros dias dos meus dias de simples mortal ex extremado destemido trabalhador dos poços de petróleo no meio do mar, presentemente reduzido a um far niente tão ou mais mortalmente perigoso que o exalar de H2S pela boca escancarada de uma mesa rotativa. Acompanhado, como sempre, da minha +quetudo, subi esta manhã a chuvosa, nevoenta e fria mas sempre maravilhosa serra da Arrábida em andamento lento e meditativo, arranhando prazeirosamente enquanto conduzia, a costura da perna do jeans dela, como se harpejasse as cordas da “outra”…

Escuta!

Tão pequena é minha voz

e de rouquidão atroz

que mal se faz ouvir;

Quisera fazer-me escutar

e a voz plena gritar

o que a alma está a sentir…

 

E o que a minha alma sente,

meu coração não desmente

e bate forte em descompasso

Nestes tempos de ira e perigo

Escolho os caminhos que sigo

e testo o terreno a cada passo…

Rolas&Periquitas

Rolas e Periquitas têm tudo a ver umas com as outras, separados que sejam os casos em que nada têm a ver umas com as outras. Nos vinhos, são ambos tintos excelentes e, no meu caso, não nego ser homem para, a um bom jantar, tomar Rola nas entradas e não dispensar Periquita no decurso da função. Ou vice versa, para não ser mal interpretado…

Dia fúnebre

Cansados, olhamo-nos em muda recapitulação de um duro dia vivido em meio a emoções fortes e mais de oitocentos quilômetros rodados no nosso pequeno C3. Filtramos os eventos, a reunião dos primos raramente vistos, as tradicionais cerimônias fúnebres na Capela, seguindo-se a missa de corpo presente na nave principal da gigantesca e bela Igreja do convento de Santa Maria de Salzedas, com seus quase mil anos de construida, o lúgubre cortejo com tanta gente da aldeia em silenciosa caminhada pelo longo e íngreme caminho calçado a granito polido por gerações, em direção à derradeira morada, no monte da Senhora da Piedade.

“Não quero nada daquilo”, disse, quebrando o silêncio; “Cremado sem cerimoniais, por favor; Sem missas, sem encomendas filsóficas ou religiosas. Depois, soltem as cinzas ao vento, preferencialmente no mar.”

Dito isso, rendidos, deitamos e dormimos, enfim, já alta madrugada…

RIP

Tia Amelinha era, tal como sua mãe, minha avó Preciosa, uma mulher franzinita de aparência frágil mas de surpreendentes reações de fortes a fortíssimas, que raramente aceitava levar desaforos para casa. Ela ajudou na minha criação, num período de agudos problemas familiares de saúde e resultantes impactos econômicos e por isso conservo páginas sem conta de recordações de infância em que ela é muito presente. Procurei descansar o espírito há dois dias atrás, espraiando meu olhar pelas belíssimas serranias em torno daquele hospital em Vila Real de Trás-Os-Montes, buscando na Natureza a conformação para a inevitabilidade da finitude, ditada pela mesma Natureza que tanto os olhos e a alma delicia. Tia Amelinha franzinou-se a um fio, com sua vida por um fio, ligada a tubos e máscara de oxigênio. Restam as recordações que fluíam enquanto admirava as profundezas do vale do rio Corgo.

Agora chegou a temida nova: Tia Amelinha partiu, finalmente…

Duvido-me

 

Pergunto-me com frequência

da minha vida a realidade

Se é embuste minha existência

ou se existo mesmo, de verdade.

 

Tenho por dúvidas coisas tais

que me belisco ao acordar

Questiono-me por demais,

mas respostas, eu não sei dar…

Gary

Quem somos

 Porque viemos

 Nalgum lugar apercebi

Que existia razão

O sonho de uma existência

Um sentimento rodeado de paixão

Do ponto de partida me afeiçoei

Do ponto de partida me aperfeiçoei

Pelo caminho desvendo olhares

Nesta estrada encontro lugares

Ao desenhar desmistifico

Ao pintar um mexerico

Já posso dizer

Que desta procura

Encontrei um lazer”

(Gary Richard)

 

****

Gary procura a Arte nas palavras, no desenho, nas colagens, na pintura. Enquanto o faz, surpreende-se encontrando a si próprio no mais recôndido da sua Alma. Nesses encontros, depara-se, encantado, com a criatividade incólume e atraente, como uma maravilha muito sua que logrou sobreviver…